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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Gentileza

Não me identifico com a patrulha do politicamente correto total que assola o mundo de forma tão aborrecida. Nunca tive sequer aquela batida camiseta pregando que “ Gentileza gera gentileza”. Acho um porre lições de moral, gente que sobe no pedestal para, do alto, dar à plebe conselhos não solicitados que geralmente eles mesmos não cumprem. Nada disso.

Um texto de Fernanda Mello, “Mais gentileza, por favor!”, me fez refletir mais a questão recorrente: como achamos desculpas para a falta de gentileza no mundo moderno. É o tempo,é o trânsito, é o estresse.Desculpas não faltam, somos pródigos em achá-las.

Suspeito que não é considerado nada cool ser muito educado. Virou coisa meio fora de moda.Sempre me lembro de uma amigo que foi morar na Alemanha.Voltou me contando que aprendeu rápido que não devia abrir a porta do restaurante da universidade para suas colegas.Recebeu um “ Eu não preciso de você pra isso” nas fuças logo e parou de tentar.Lá, segundo ele, era uma questão de feminismo.

Isso tudo é muito complicado, diga-se de passagem. Vamos nos adaptando às circunstâncias e baixando nossas expectativas, tanto com relação aos outros como com relação a nós mesmos.E o que é pior: quase sem sentir.

Ante a reação alheia, já me senti anacrônica ou inadequada num ato de gentileza ou mera educação. Quem não se sentiu idiota por dirigir protocolares “ bom dias” a vizinhos variados e ser ,sistematicamente, deixado no vácuo? Um dia, a criatura cansa de tomar iniciativa. No pólo passivo, pode ser quem fôr, sempre respondo.Aprendi com meu avô.Certa vez andávamos pela rua onde ele morava e,ao passar por um pé-sujo da vizinhança, um consumidor inveterado de artigos alcoólicos se precipitou afobadamente para a porta do estabelecimento e disse e alto e bom som: “ Boa tarde, Dr. Carlos!” Meu avô- que não se chamava Carlos- respondeu com sua não-efusividade cordial habitual: um sorriso de Monaliso, um meneio reverente de cabeça e continuamos andando.Não me agüentei e encarei interrogativamente meu avô.Ele respondeu: “ Ele me cumprimenta assim há pelo menos vinte anos.Que importância tem se eu não me chamo Carlos?” Lição dada, lição aprendida.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Igualdade Homem-Mulher, essa sandice...

Neste ano de Deus de 2011, com constantes desencontros por aí, há que se perguntar...

Queremos igualdade Homem-Mulher?!

Igualdade não, queremos progresso. Não queremos tampouco- exceto umas poucas delirantes-homens provedores.Mas não nos peçam, como antigamente, dedicação exclusiva ao homem e à família, num regime de bem mais de 40 horas semanais sem estabilidade.Mesmo que uma ou outra raridade possa até ficar feliz com isso, não convém arriscar.Uma grande maioria irá achar uma temeridade.E, hoje em dia, realmente é.Os tempos mudaram irremediavelmente.Point of no return.

Há vários pontos positivos nas mudanças, mas só gente doida pode querer a tal da igualdade mesmo, pra valer.Até porque é uma impossibilidade absoluta a igualdade entre desiguais.(Não entendo o suficiente sobre a dinâmica dos casais homossexuais para discorrer a respeito.Sendo assim, vou me restringir ao pouco que sei mais ou menos.) A graça está, pelo menos pra mim, nas diferenças que instigam, atraem, mas por vezes desnorteiam.

Dizem que os homens andam meio confusos com seu novo papel.A mulher “bem-resolvida” de hoje confunde.Bem resolvida uma ova! Ser humano” bem –resolvido”, independente do sexo, foi uma criação infernal produzida apenas no mundo das palavras ocas! Na vida, quando se acha que finalmente talvez tudo esteja entrando nos eixos, vem um vento e embaralha tudo de novo. Vem uma maré e te engole.Vem um terremoto e te abala.Não existe nada posto e estabelecido.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Fui de cabeça!

Quando comecei a me aventurar afobadamente no maravilhoso (e imprevisível) mundo das colorações de cabelo, me diziam que algumas estripulias capilares poderiam acabar em cabelocídio. Quando decidi me tornar ruiva,ameaçaram que tal cor era ingrata caso desejasse voltar atrás.Eu nem titubeava.A vida não tem ensaio, dificilmente dá pra voltar atrás, porque com cabelos seria diferente?! E respondia: “Se um dia eu quiser voltar atrás e fôr impossível, raspo o cabelo todo e começo tudo de novo.” Todo mundo se chocava à mera enunciação da idéia e creio que poucos acreditassem que eu fosse realmente capaz daquilo. Afinal, apesar dos pesares, poucas mulheres chegam a esse ponto.Embora devessem.

Dizem que, quando Giorgio Armani esteve no Brasil a primeira vez, perguntaram-lhe o que tinha achado das brasileiras. Ele respondeu: “ Cabelo, muito cabelo!” É verdade que aqui parecemos ter o mito da Gabriela, personagem inesquecível de Jorge Amado encarnado em Sônia Braga- que nunca mais ousou alterar o corte de cabelo, apesar de décadas decorridas.Brasileiras,na maioria,têm receio de cortar os cabelos.Passam anos aparando imperceptivelmente as madeixas.E ficam fulas, claro, quando não reparam suas nano-aparadas de cabelo.Um medo danado de sair da zona de conforto.

Vivi alguns traumas capilares na vida, desde cedo. Tinha uns 8 anos quando entrei no salão para aparar as pontas e, quando a cabeleireira informou que minha cabeça estava infestada de lêndeas, minha impulsiva mãe determinou uma mudança radical compulsória.Entendo os traumatizados que tem mais medo de cabeleireiro do que de dentista.É chato quando se pede uma coisa, fazem outra e cobram ( geralmente caro) por isso.É péssimo querer se embelezar e se piorar.Eu, que já tive metade da sombrancelha arrancada num puxão de cera, sei bem do que estou falando!

Mas... quem não arrisca, não petisca! Vi alguns vídeos de mulheres que passaram máquina nos cabelos que só me animaram. Parecia um mundo novo que eu nem cogitara existir, sobretudo depois de passar os últimos 3 anos testando uma infinidade de cortes curtos e colorações variadas e praticamente não ter mais o que inventar.Entrei no barbeiro da vizinhança. Mostrei como queria e sentei na cadeira, sob o olhar curioso daquele clube do Bolinha, subitamente feito silencioso. Pedi máquina 4.O barbeiro teve a precaução de passar máquina 6 e perguntar se eu queria mesmo mais curto.Sim,queria! Queria a libertação total do meu histórico capilar, queria meus cabelos sem nenhum traço de tintura novamente, redescobrí-los. Ver como é não ter cabelos depois de passar tanto tempo me preocupando e me dedicando a eles.

Saí de lá contente. Não porque estava me achando linda, mas porque estava me sentindo livre. Começar de novo.Do zero.Ou melhor,da máquina 4.Sentir o vento batendo nos cabelos de um jeito jamais sentido. Sentir o gostoso tapetinho capilar que a máquina cria. Sentir o olhar variado (surpresa/horror/pânico/curiosidade/ admiração dos outros.) Na verdade, indico a experiência para quem quiser se testar.E testar os outros, naturalmente....rs.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Tinha um exame de sangue no meio da caminho

Hoje fui à nutricionista.Seguindo o princípio de que toda mulher, independente do peso, sempre acha que precisa eliminar 5 quilos, foi bem isso que ela me disse!!!! Fiquei até feliz, podia ter sido bem pior.


Na verdade, não fui à nutricionista por iniciativa própria mas por coerção do meu gastroenterologista.Ela me passou uma batelada de exames de sangue que, quando ficarem prontos, temo serem responsáveis por mais restrições ainda na dieta.Quem mandou comer castanhas de cajú e do pará aos punhados e quantidades industriais de pipoca?! rs Dizia meu sábio avô: " Cabeça faz, o corpo paga!"



O mais complicado (e inútil) será postergar os tais exames, coisa que vai ser difícil com o gastro e a nutricionista -cúmplices- no meu encalço. Tenho pavor de tirar sangue. Já desisti de pedir a coleta deitada na maca, vou precisar que a façam comigo de ponta-cabeça, estilo bat-girl.Talvez assim, quem sabe, eu não desmaie.Além do mais que, chatura das chaturas, pedem sempre aquele infernal jejum de 12hs.Só por ele eu já quase desmaio.





Não sou de mimimi normalmente, aguento estoicamente injeções variadas, dores físicas das mais fortes estilo crise renal (considerada por muitos como dor das dores), piercing e tatuagem sem dar um pio...mas esse troço de " vou achar sua veia, hum, essa não está muito boa, deixa eu ver se tem alguma melhor" realmente me transforma...pra bem pior, infelizmente.E quando "perdem" a veia em meio ao procedimento? Se pudesse, diria: " Aqui não voltarei jamais!" E há bem mais veias minhas perdidas por aí do que eu gostaria... :-(









quarta-feira, 29 de junho de 2011

Tesão, esse grande vira-latas!

Percebo que as pessoas enchem a boca, sem trocadilhos, para falar do tesão.Colocam-no num patamar acima do que ele, um tremendo vira-lata, merece. (Não, não me crucifiquem os defensores dos simpáticos cães vira-latas.É uma mera figura de linguagem.Cães de raça costumam ser mais exigentes e demandam bem mais empenho.Vira-latas dormem no relento, sobrevivem com muito pouco, abanam o rabo facilmente.)



Tenho a impressão que a nossa sociedade acha que o tesão é rei, é mestre, é comandante.Ele manda, e nós, incapazes de resistir, obedecemos.Não faltam provas ( leia-se burradas.)Vejo pessoas entrando e se mantendo em roubadas tendo como estopim o famigerado tesão.Vejo gente entrando em contenda, amizades se desfazendo.Vejo-o sendo o catalisador de uniões improváveis e desaconselháveis e até desagregador de uniões eficazes já estabelecidas.


Certo que esse é um vira-latas selvagem, difícil de administrar.Como um cão recuperado da vida nas vielas e trazido para a vida em apartamento, nunca estará completamente socializado.Um belo dia, num acesso primal, pode subir na mesa da cozinha atacando a comida em travessas, derrubar as panelas em cima do fogão e causar o maior pandemônio.É fortemente recomendável nutrir por ele certo temor e mantermos nossos pés convenientemente atrás.Não se trata de um poodle toy ou yorkshire.É uma criatura não domesticada, faminta, imediatista, que age no calor dos acontecimentos, por instinto.


Somos todos animais, por mais que aparentemente civilizados.Mesmo tendo casas arrumadinhas com vindas periódicas da faxineira, com compras mensais de supermercado,
e que andemos por aí apresentáveis e de banho tomado, tenhamos atividades profissionais e conta no banco.Tudo isso é superfície.No interior pode jazer, e geralmente jaz, esse grandicíssimo vira-latas: o tesão.


Os cientistas podem me malhar dizendo que se não fosse ele, a civilização não teria chegado a tal ponto para eu poder estar aqui decantando minhas abobrinhas.Certo.Mas agora, que já povoamos a Terra fartamente, podemos tentar pensar com mais sabedoria o que fazer com o tesão.

Decreta Roberto Freire que " Sem tesão, não há solução." Decreto eu: " Só com tesão, muito menos ainda!" É, tem mais: geralmente o tesão é burro.Não pensa, não avalia, não pesa as coisas e as situações.Sai ensandecido fazendo merda, ou doidinho pra fazer.Geralmente só é contido por alguns choques de realidade, nunca espontâneos, sempre por parte de segundos ou terceiros que não estejam sob seus efeitos alucinógenos.Sim, porque esse bicho do tesão é uma droga que altera a visão, a audição e o senso de realidade.

O delicado verbo ' FICAR '

A., na fulgurância dos seus vinte e poucos anos, estava realmente danada da vida por invasão de território: B.teria ostensivamente dado em cima- de forma bem-sucedida- de um rapaz com o qual A. já teria ficado.


Depois acrescentou que a relação com ele não era nada séria: o rapaz estava apenas de passagem pela cidade e havia deixado cristalinamente claro que aquilo não teria futuro.Ela topou assim mesmo.No entanto, ao sentir a aproximação de outra do seu objeto de desejo, advertiu enfaticamente que qualquer passo adiante seria encarado como uma declaração de guerra.B. deu de ombros pra ameaça e foi até o fim.Não apenas deu MUITA bola para o rapaz, como DEU MESMO, com várias vias reconhecidas em cartório, de acordo com testemunhas que afirmaram terem ciência que o rapaz tinha sido abduzido naquela noite mesmo.

A.fazia sua declaração pública de ódio a B.O público, cerca de uma dúzia de pessoas, assistia com alguns questionamentos ( " Mas B era sua amiga?", " Mas o cara não tinha deixado claro que queria liberdade?", " Por que vc ficou apenas chateada com ela e não com ele?-afinal quando um não quer, dois-salvo casos de violência-dificilmente transam...").Pouco importando as curiosidades da platéia- rapidamente respondidas - A. sempre voltava ao seu principal: o absoluto ódio que aquela situação lhe causara.

Eu, que achava que a geração dos vinte e poucos tirava de letra o descompromisso do moderno verbo " ficar" em todas as suas conjugações, fiquei um pouco surpresa.Sou de outra geração, a que começou a balbuciar esse verbo que, nos meus 15 anos, ainda era novidade.Vi e vejo muita gente da minha geração e até anteriores, conjugando-o com aparente destreza.Topar com uma representante da novíssima geração tendo tanta dificuldade de assimilação da mesma situação me causou um certo estranhamento.A.pouco estava se importando com a opinião alheia, achava o que B. tinha feito um absurdo, um desrespeito e ponto. Mereceria a forca, ou a guilhotina!

Tive um lampejo e me perguntei: " será que muita gente finge tal naturalizade perene em questões como essa a ponto de nos convencer que se incomodar é mesmo o comportamento dissonante?

Tudo é tão cool, tão normal, quase nada, só sexo...Ou pelo menos deveria ser...lá no contrato verbal ou implícito de descompromisso dos nossos tempos modernos. Só que, vez por outra, alguma coisa dá errado.Alguém se melindra. Mesmo aos 20 anos.

Pessoalmente entendi que A. tinha agido de forma bastante estranha com B. ao dizer para uma completa desconhecida: " Olha aqui, menina, fulano tá ficando COMIGO, cai fora.". Tal me soa nada razoável e muito autoritário.Fulano não é um ser inanimado, uma propriedade, um latifúndio invadido por posseiros a ser defendido pela força ou pela intimidação.


Eu terminaria acatando a ameaça, até porque tenho o mais absoluto horror desses conflitos de posse amorosa-sexual vulgarmente chamados " barracos". E também, qual a graça de um duelo de faroeste por um camarada que está apenas de passagem pela cidade?! Até mesmo porque, até onde sei, o Rodrigo Hilbert já mora mesmo na cidade mas, last but not least, está casadíssimo com a Fernanda Lima!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O único homem compartilhável festivamente com amigas chama-se CABELEIREIRO

Sexta-feira vou cortar meus cabelos com um cabelereiro talentoso ( e charmoso) que compartilho com minha amizade feminina mais antiga.Ele corta o cabelo dela de joelhos, não sabemos e muito menos questionamos os motivos dessa técnica.Ela brinca ( comigo) que paga sorrindo para ter aquele homem de joelhos por ela e sempre sai bem melhor do que entrou.

Ele jamais fez esse mesmo salamaleque para cortar os meus, no entanto não há ciúmes envolvidos. Compartilhamos esse mesmo homem tatuado de olhos verdes sempre felizes e contentes, até e inclusive com a mulher dele que trabalha no mesmo salão.Sempre sorrimos umas para as outras, temos simpatia recíproca e nos damos muito bem.O convívio é o melhor possível entre nós.Também sou cabeça-feita para dividir jubilosamente prestimosos profissionais do sexo masculino: o jovem lorde inglês que conserta a meus queridos eletrodomésticos, o dentista hilário e detalhista que zela por minha estimada arcada dentária e até mesmo o analista absolutamente impagável que cuida daquilo que sempre me dá mais trabalho.


Também compartilho amigos, por mais chegados que sejam, com sorriso de molares e nem uma pontada de ciúmes sequer.Fico genuinamente feliz quando as coisas vão bem para todos, quando as pessoas se entendem e se gostam.Chego ao cúmulo máximo de não me abalar nem um milímetro sequer mesmo com uma mãe pródiga que sempre distribuiu atenções e presentes efusivamente ao seu redor.Profissionais, amigos, até mãe ( que só tem UMA!) divido numa boa.

Só não me chamem para dividir civilizadamente homens futuros, presentes e passados quando se tratar do campo romântico-sexual, seja em que pólo fôr.Isso não inclui tão somente homens que passaram ou estão na vida de minhas amigas que venham a demonstrar interesse em mim.Inclui também amigas desapegadas que não se importem ou até incentivem.Podem até mesmo, o homem e a mulher, em uníssono, jurarem sobre a Bíblia e trazerem declaração com firma reconhecida em cartório de que não há a mínima hipótese de problema, que o que havia entre eles jaz sepulto debaixo de mil toneladas de cinza, que permanecerei impassível.

Não confundam meu gosto estético, meu pendor por um visual menos careta com a tal da " modernidade"nos relacionamentos : minha criação e meu âmago permanerão para sempre "Flinstonianos". Amém.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Amizade ou algo mais?

Dia desses um amigo comunica estar a fim de uma outra amiga nossa.Faz-se silêncio de alguns segundos e eu me pergunto o que dizer...afinal as opiniões sobre esse tema são sempre tão diversas, como dar conselho?!

Terminei dizendo que ele tinha que descobrir primeiro qual era a posição dela, nossa amiga, pois conheço algumas vertentes sobre o tema:

a) Gente que não se encana com isso e até prefere tal prática.Essas/as me questionam: " Ficar com inimigo/a?!"


b) Gente que evita tal prática, abrindo exceção se achar que vale mesmo a pena.

c) Gente que tem mais medo disso do que o diabo da cruz, o povo dramático do " isso vai estragar nossa amizade!"


Tendo a respeitar as 3 vertentes, afinal " cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é", mas prefiro a opção moderada; a do centro.Nem 8, nem 80.Nem tudo, nem tão pouco. O caminho do meio, como indicava Buda...rs

Deve ser um inferno absoluto se descobrir gostando de alguém, além da amizade, e achar que não se deve expressar ou vivenciar tais sentimentos sob pena de " perder a amizade". Amizades próximas ( entre pessoas do mesmo sexo ou não) são em bem menor número do que indica nosso número de contatos sempre crescentes nas redes sociais.Portanto, prezo muito minhas amizades e não é nada do meu feitio misturar alhos com bugalhos. Sempre gostei de situações categóricas, nunca das híbridas ou sempre mutantes.Sou do tipo que prefere dar os nomes ( certos) aos bois.Ou bem me sinto amiga, ou bem quero algo mais, não costumo ficar na dúvida.Mas não vejo motivo algum para, se ficar a fim de um amigo e vislumbrar que aquilo pode ter algum futuro, saber me fazer entender.

Por outro lado, sou completamente contra usar algum amigo homem- pelo qual não me sinta atraída física e emocionalmente-como suporte em momentos de carência ou maior fragilidade emocional.Não, mesmo que algum se prontifique a servir de objeto, "gentileza" bastante comum entre a maioria dos homens.

Se continuar firmemente nessa linha, provavelmente nunca descobrirei as vantagens que me relatam das amizades coloridas...(Tá bom que amizade colorida é um termo anos 70, hoje em dia a modernidade nos fala bem mais de fucking friends e variações...).

Já namorei amigo sim, após convívio próximo diário e harmonioso de 5 anos na faculdade.Sentávamos sempre juntos, estávamos sempre juntos, fazíamos todos os trabalhos juntos, trocávamos dicas de estudo, ajudávamos um ao outro, como dupla de amigos éramos um sucesso, funcionávamos muito bem.

Sempre resisti às investidas dele.Todo mundo na turma jurava que tínhamos um caso e, no entanto, a verdade absoluta ( e inverossímel) era que nada jamais tinha rolado entre nós.Achava que éramos muito diferentes e que algo além da amizade não teria muito como vingar.Além disso, com a minha velha teoria de que sempre sabemos como as relações começam mas jamais teremos certeza de como terminam, confesso que tive pânico de tentar algo durante a faculdade.Vai que algo não apenas dá errado, mas dá MUITO errado? E depois, ter que conviver com o camarada mais anos na mesma turma? Namorado da mesma turma é como ter algo com o vizinho: melhor evitar, vai que...dá M.?! Naquela época, aos 18-20 anos, não me sentia nada preparada para bancar aquilo.

Um belo dia, a faculdade termina e resolvo: bom, melhor tirar a dúvida, né?! Imagina aquilo me perseguindo a vida inteira?! Imagina o povo da turma me perguntando daqui a 20 anos: " cadê fulano, eu sempre achei que vcs eram feitos um para o outro?!" rs

Como é bem sabido, as coisas JAMAIS saem como planejado, exatamente como no fim de semana em que resolvo passar na rede de vôlei dele na praia, chamar pra tomar uma água de côco e conversar: chego lá, ele vem me cumprimentar e dali a pouco me fala: " Ah, Ana, deixa eu te apresentar a minha nova namorada, a fulana!" e chamou uma garota que eu, objetivamente ou não, julguei não chegar aos meus tornozelos.Mas gosto não se discute e quem era eu pra questionar ou me meter no meio de uma relação já iniciada, eu que nunca tinha tido coragem de correr o risco, apesar das investidas dele?! Fiquei ali alguns instantes, com cara de tacho e sorriso amarelo pensando " Caraca, logo agora?!" Dei uma desculpa e saí caminhando, mas com a cabeça dando pinotes.


Achei melhor deixar rolar, se já havia esperado 5 longos anos, podia esperar um pouco mais.A amizade continuou, mais distante tanto porque já não nos veríamos todos os dias na faculdade, como pelo novo namoro seria natural que ele se afastasse.A namorada- ele dizia- morria de ciúmes de mim.Nossos amigos da faculdade sabiam e davam risadinhas da namorada ciumenta em eventos sociais em que nós todos nos encontrávamos.Ele achava graça, mesmo sem saber que na verdade, o ciúme já estava sendo recíproco.

Fui vivendo minha vida mas de forma meio presa, me perguntando: " Vai que ela engravida, eles casam e eu nunca mais tenho a chance de tirar a prova se realmente éramos compatíveis?!" Ou vai ser daqueles casos em que as pessoas se reencontram 30 anos depois pra tirar a prova dos 9? Não, não queria isso, mas me parecia sacanagem chegar e me meter no meio da relação dele.

Esperei.Um dia o namoro acabou e fomos tentar.Tentamos e tive certeza de que timing é das coisas mais essenciais nas relações homem-mulher.Às vezes, seja lá pq motivo fôr, vc perde o bonde e a verdade é que nunca mais consegue pegar o bonde com aquela mesma pessoa. "Quem avisa, amigo é...".

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Aprender a envelhecer

Hoje em dia, com tanta opção em vários ramos para se agarrar desvairadamente à juventude perdida, é preciso -mais do que nunca- se estar disposto a aprender a envelhecer.


Não é o tipo de coisa que se nasça sabendo. Não é fácil pra ninguém, mas parece ser mais complicado ainda para mulheres.Com especial agravante para as muito belas desde cedo, que se acostumaram com o ar de embevecimento que a beleza costuma impôr.( Já está mais do que provado em testes com bebês, que reagem pronta e claramente a desconhecidos belos, que somos muito susceptíveis à beleza alheia, e desde a mais tenra idade.No entanto, com a socialização, alguns vão aprendendo a disfarçar isso muito bem, às vezes até de si mesmos...)


Todos conhecemos pilhas de gente que envelhece mal, tanto visualmente como psicologicamente.Temos dúzias de exemplos de como cirurgias plásticas repetidas sem critério podem chegar a resultados absolutamente ridículos.De como tem gente que envelhece e fica cada vez mais chata, mais mal-humorada e mais cheia de manias.De criaturas que não passam recibo de idade de jeito nenhum e, mesmo com 80 anos, se recusam a ser chamadas de avós pelos próprios netos.



Eu não gostava de ser chamada de tia. Como não tenho sobrinhos, tratava-se sempre alguém forçando a barra de uma intimidade inexistente. Já quando comecei a ser chamada invariavelmente de senhora, revi meus conceitos.É, talvez fosse mesmo algo complicado envelhecer... Agora já metabolizei.Acho que já estou preparada até para me chamarem de coroa hoje ou qualquer dia desses.Comprei até um colarzinho com uma coroa de verdade para comemorar o fato.



Com um avô que envelheceu muito bem sob vários aspectos, tive algumas lições desde cedo.Ele, que sempre aparentou ter muitos anos a menos do que sua real data de nascimento, achava um completo contra-senso diminuir a idade.Ou falava a verdade exata ou arredondava pra cima.



Algumas pessoas que mentem a idade de forma contumaz já me advertiram que cedo ou tarde acabarei-como elas-sucumbindo.Dizem que há um preconceito danado contra gente mais velha, que as pessoas mais jovens se chocam e mudam completamente o tratamento ao ouvirem claramente a nossa idade. Alegam que uma coisa é imaginar a faixa etária de alguém, outra- muito mais grave- é ter certeza.Eu já ando chocando alguns- ou, pelo menos, são bons e gentis atores.





Posso estar cuspindo previamente no prato que comerei daqui a uns anos, mas suspeito que seguirei mesmo a tradição familiar. (Minha mãe aos 66 já vive dizendo que tem 70 anos...) Pelo que me consta, somos de um clã minoritário.



Envelhecer, com exceção da opção radical de se morrer jovem, é obrigatório.Já amadurecer é completamente opcional.Isso me lembra de uma entrevista com o espirituoso Washington Olivetto que, ao ser perguntado como foi ter alcançado o sucesso profissional tão cedo, respondeu: "Ótimo! assim pude ser babaca na hora condizente."



Imaturidade é um modelito que definitivamente cai muito pior em gente com mais idade.Ando me esforçando bastante e há uns bons anos pra tirá-lo definitivamente do meu armário.Com a idade, menos coisas caem bem, tanto no corpo como no comportamento.

sábado, 2 de abril de 2011

Sexo, por gentileza!

Há um aspecto que, segundo eu mesma, pode fazer com que nossos relacionamentos caiam numa cova rasa. Casais que já passaram pelo furor inicial da conquista costumam incorrer num erro grave: negar sexo ao parceiro. Isso pode acontecer tanto do lado feminino como do masculino e, acreditem, nunca traz bons frutos.

Nem sempre é necessariamente algo declarado do tipo “ hoje estou com dor de cabeça”, algumas vezes pode ser algo mais sutil como não estar atento aos sinais do outro ou começar a se lamuriar por tempo demais sobre trabalho, cansaço, trânsito, contas, time de futebol...ou sobre o que quer que seja. Tem gente que parece entrar em transe nesses momentos, ficam aparentemente possuídas por tais frustrações a ponto de se bloquear completamente para qualquer possibilidade, mesmo que rápida e simples, de sexo com o parceiro.

Sigo o princípio pessoal que sexo, dentro de uma relação estável com alguém de quem você gosta e que goste de você, até quando é ruim é bom. Mas fico REALMENTE IMPRESSIONADA pelo número de pessoas que parece discordar de mim com suas atitudes. Vira e mexe ouço algum homem reclamando que a parceira não tem tanta disponibilidade quanto ele para o sexo. Vira e mexe essas mulheres se confessam comigo. Vira e mexe ouço alguma mulher que se sentiu rejeitada pela falta de procura ou aceitação do homem. Coitados.Coitadas.

Compreendo que a vida muitas vezes se complica e algumas circunstâncias podem reduzir o apetite sexual de ( algumas) pessoas. Compreendo que às vezes o casal não tem o mesmo ritmo nem preferência horária. Mas compreendam, os mais propensos à férias sexuais unilateralmente declaradas e sem culpa- tanto MULHERES como homens- a importância da situação.


Convenhamos: ninguém está pedindo para se fazer algo desagradável mas tão somente algo AGRADÁVEL que não se está a fim de fazer. Já que fazemos desde sempre coisas desagradáveis sem estar a fim todo santo dia e até mesmo várias vezes no mesmo dia, então qual seria o problema? E mais ainda: se fôr pelo bem do nosso relacionamento e, por consequência,nosso próprio bem? ( tudo bem, vou me abster de me dirigir a casais com filhos pequenos, com criança chorando no berço, mulher amamentando, crianças esmurrando a porta do quarto dos pais aos urros...que nesse universo não transito e não ouso ser injusta...)

Nas vezes que ouvi mulheres se lamuriando que os parceiros querem sempre mais sexo do que elas, tive vontade de sacudí-las pelos ombros e perguntar: “ Minha filha, qual o problema, tá reclamando de que?” - mas muitas vezes prefiro agir de forma mais cômoda: ficar calada, mão no queixo e olhar perdido ouvindo aquele nhenhenhém onde ela parece plenamente convencida que seria menos incômodo trocar um pneu dentro de um túnel do que dar pro parceiro, sob qualquer hipótese ou modalidade. Não está super inspirada? Faça simples. Está super cansada? Faça rápido, antes que durma. Tá com dor nas costas? Escolha a posição mais conveniente e deixe o parceiro mais motivado com o lado mais trabalhoso.

As vezes que ouvi sobre homens que negaram sexo, tácita ou explicitamente, sempre foi via mulheres, então nunca pude perguntar-lhes seus reais motivos. Se já negaram a mim? Sim, que eu me lembre duas vezes: em uma fiquei grilada caraminholando se o relacionamento não estava indo ralo abaixo e de outra fiquei fula da vida achando que ele estava fazendo “ chantagem sexual”...hehe. ( a propósito: em ambos os casos, minha avaliação foi correta.)


Preocupação-paralizante impeditiva de sexo é compreensível, claro... no dia da morte de parentes até segundo grau e de único animal de estimação, demissão por justa causa e ordem de despejo! Risos...Brincadeira: cada um tem os seus motivos, mas não é recomendável fazer tempestade em copo d'água achando que ter problemas realmente angustiantes seja motivo para.... criarmos mais problemas angustiantes com nosso próprio parceiro! E essa coisa de “ ah, hoje não estou a fim, ele/ela vai ter que entender” eu, particularmente, acho uma temeridade. Talvez porque no fundo, ache que uma procura sexual- num relacionamento consumado- não deixa de ser um elogio. Um “ Ei, olha como ainda tenho tesão em você...e com que frequência!” Este é motivo para se alegrar sempre.

Certo que a anatomia masculina é bem diferente da feminina, mas mesmo assim... com uma boa dose de boa vontade e o estímulo correto, será que várias negativas não poderiam ser evitadas?


Isso porque creio piamente que a rejeição sexual é, entre um casal, das piores coisas. Fico impressionada como algumas pessoas empacam e não estão dispostas a se mover um milímetro sequer na busca da compreensão do outro. Em relacionamentos humanos, quem muito bate o pé acaba dando um tiro no próprio pé, isso sim!

terça-feira, 29 de março de 2011

Separações inesperadas- um capítulo à parte

Constatei no Facebook a mudança de estado civil de uma amiga como quem recebe a notícia de morte de alguém jovem: com a mais absoluta incredulidade. Certos ( poucos) casais, quando se separam, despertam a mesmíssima reação. Mas como eles, logo ELES, foram se separar??!! Todos conhecemos casais que vivem às turras por décadas e nunca se separam, mas, por outro lado, também conhecemos aqueles que sempre foram vistos como exemplos e nos deixam boquiabertos quando anunciam o fim da relação.


Mas não é possível!!! Pela sucessão de comentários surpresos que se acumularam rapidamente abaixo da má-nova, percebi que os outros amigos partilhavam da mesma estupefação que eu. Em todas as vezes que os vi juntos, certifico e dou fé que presenciei dois seres com sorrisos até os molares, olhos ultra-faiscantes e sempre a contrariar aquela lei da Física que impõe que 2 corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Além do mais, a história do encontro deles era formidável. Não, eu não podia nem queria acreditar naquilo.

Assim como a morte de alguém mais jovem sempre nos causa um amargo gosto residual e inquietações existenciais variadas, também foi esse o efeito daquela notícia inesperada. Pouco sei dos motivos e, mesmo se vier a sabê-los, provavelmente nada contribuirá para diminuir meu espanto. Muito pelo contrário.

Bem me lembro da última vez que fiquei tão surpresa assim: quando os pais de uma grande amiga de infância resolveram se separar depois de 30 anos de casados. Eu frequentei a casa deles por anos, e nunca poderia suspeitar da hipótese um tal rompimento, nem nas minhas suposições mais desvairadas. As 3 filhas do casal também foram colhidas de surpresa. Na mesma época houve um surto de separações entre os pais de minhas amigas, todos casamentos na faixa das 3 décadas, mas os outros foram vistos sem grandes espantos. Todos podiam se separar na face da Terra, menos Fulano e Sicrana. Ah, eles não!


Coincidentemente, a mais recente notícia deles é que passaram um tempo separados, mas acabaram reatando. Uma colega de faculdade viveu algo ainda mais insólito: seus pais, oficialmente casados, se divorciaram também oficialmente....para depois tornarem a casar legalmente novamente. Depois de ouvir tal relato, percebi que, para o melhor e para o pior, tudo é possível entre um casal.


Mesmo hoje em dia, quando se casa, descasa e se declama o grande amor com muito mais facilidade do que em décadas passadas, algumas separações abalam até os não diretamente envolvidos. Todos nós sabemos que a vida é mesmo incerta e as relações humanas mais ainda, no entanto queremos poder acreditar que alguns, ainda que poucos, bafejados pela sorte alcançam um patamar onde ficam incólumes a esse tipo de incerteza emocional. Mentira. E, de forma irônica, justamente a incerteza sine qua non de todos relacionamentos, sem exceção, os torne um desafio ainda mais instigante e desafiador.

quarta-feira, 23 de março de 2011

"Aparência & Conteúdo: da dificuldade de se encontrar ambos em harmonia e de como tudo o que é raro tem mais valor.”

Conversando com um amigo, à queima-roupa ele me atira essa pérola. Sou afortunada pois, além do Ivan Martins, tenho também amigos a me fornecer- mesmo que involuntariamente- material de trabalho!

Ele relata que terminou um namoro há 3 meses e, desde então, não achou ninguém que tivesse despertado seu interesse. Morando no Rio de Janeiro, ótima aparência e não-eremita, não consegui acreditar naquilo sem sobressalto.

“ Mas peraí - retruquei- “E aquelas meninas que estavam te 'dando mole'?”

“Ah, elas ATÉ QUE são legais”, mas nesse tempo não encontrei ninguém que me desse vontade de ligar, de ver, de chamar pro cinema, ninguém que me desse vontade de ir além de uma coisa de momento. Há a atração física, mas falta conteúdo.”

Fiquei estatelada por alguns instantes diante de tal declaração. Curioso como pode ser contundente ouvir de um jovem representante do sexo oposto- que normalmente temos a tendência de pensar se tratar de universo totalmente a parte, com questões tão radicalmente diferentes das nossas femininas- aquela verdade que muitas vezes constatei por prática ou observação alheia. No fundo era aquela mesmíssima mensagem, já ouvida ou sentida diversas vezes- só que dita de uma forma mais testosterônica. E isso me lembrou uma memorável frase- tanto hilária como dramática- dita por uma amiga- em tom de palhaçada- a um rapaz atraente que conheceu numa festa, após tentativas frustradas de estabelecer contato intelectual: “ Cala a boca e me beija!”

Eu, do lado progesterônico da força, mas também solteira há coincidentes 3 meses, com uma vida social bastante movimentada e uma aparência razoável, certamente também me lamento: por que infernos é tão difícil solucionar a equação que conjuga aparência e conteúdo?! Por que cargas d'água se pode trombar ao longo da vida pessoas que atraem nossos olhos como imãs ou com pessoas cuja conteúdo nos encante imensamente, mas por que desgraçadamente a conjugação de ambos no mesmo corpo é algo tão raro e imprevisível? E, quando você acha que finalmente deu uma sorte danada, descobre que a pessoa é comprometida, gay ou que simplesmente não está nem aí pra você, obrigada!?


Alguém com alguma hipótese satisfatória, favor clicar aí embaixo nos comentários. Contribuo modestamente com apenas um consolo para aguardarmos resignados e confiantes por uma próxima passagem do cometa Halley: “ TUDO O QUE É RARO TEM MAIS VALOR!”

segunda-feira, 21 de março de 2011

Rejeição?! Não, obrigada!

Rejeição, um prato de difícil digestão.

Esta semana o Ivan Martins, um dos meus oráculos dos bons temas, escolheu abordar a questão em sua coluna semanal na revista Época ( “ Quando as mulheres dizem não” ). O texto e os comentários dos leitores, copiosos e acalorados, me provaram que, embora relativamente pouco se fale disso tendo em vista sua altíssima incidência, este é um assunto vital para a maioria de nós.

Aqui entre nós: rejeição é dose pra mamute! Até da caixa da padaria que te ignora na fila e continua de costas num papo animado com a colega, é mesmo troço difícil de deglutir.( “ Que acinte!” hehe ) Se como cliente não ser tratado como desejaríamos já é irritante, imaginem então com algum sentimento- mesmo que “apenas” de desejo sexual -envolvido.

Ser preterido é coisa democrática- atinge a todos nós um sem número de vezes durante a vida, seja em família ( aquela típica situação de “Papai e Mamãe gostam mais dos meus irmãos do que eu”), seja na escola (“ Não sou a menina mais linda e popular daqui, infelizmente...”, “ Não sou o garoto mais gostosão, pelo qual todas as meninas suspiram pelos cantos.”, “ Não sou o melhor aluno, paparicado pelos professores e muitas vezes sacaneado pelos invejosos...”.), seja na turma ( “ Não sou o líder, não sou o mais carismático.”, seja na vida profissional ( “ Não, não fui eu o escolhido para a promoção mais uma vez...”), seja, last but not least, na vida amorosa-sexual ( não que ambas as coisas andem juntas atualmente).

Às vezes rejeição dá ódio, às vezes dá nó na garganta. Às vezes, dá vontade de racionalizar ( “ Mas porque não? Porque ela e não eu- nessa promoção, nessa investida amorosa, etc etc...), às vezes causa até- hihihi- vontade de escrever- e de ler sobre o tema. Tema esse que, a essa altura, todos nós aqui já devemos conhecer sobejamente! ( Bom, ou só os que admitirem a verdade...rs)



Apesar de não faltarem oportunidades diárias sortidas para aprendermos a lidar com a rejeição, parece que seguimos pela vida sempre meio capengas nessa habilidade. Será talvez algum chip defeituoso instalado de fábrica e sem direito a recall? Tomara que, num esforço consciente, haja realmente algum progresso possa ser feito!

O tema da rejeição me parece medularmente ligado à resistência à frustração, esta utilíssima habilidade não-nata a ser desenvolvida obstinadamente existência afora.

Lá pelos 4 anos, tentam nos ensinar que não, não podemos comer todos os brigadeiros da festa, e sobretudo antes do parabéns. A gente grita, esperneia, chora e se rebela. Problema fica se permanecemos na mesma esparrela- mesmo que sem dar tanto na pinta- décadas depois AINDA.

Sobretudo em situações afetivas- que ocultam o risco iminente de fazer emergir os lados mais infantis de nossas personalidades- socooooorrooooooooo!

A sedução homem-mulher/ mulher-homem ( a julgar pelo que conheço de mim mesma, as únicas às quais me dedicarei no curso desta existência) vira aquela guerra dos sexos com direito a estratégias, DE AMBOS OS LADOS, acumuladas por reflexo pavloviano, homens reclamando das mulheres e mulheres revidando com vigor. Muxoxos, lamentos, histórias para desopilar nos ouvidos e ombros dos amigos ( e receber apoio: “ Sim, ele/ela é mesmo um/a babaca!” )...

domingo, 13 de março de 2011

"Eu te amo não é bom dia!" ( Renata Iannarelli)

“Eu te amo não é bom dia.” A ótima frase, de autoria de uma blogueira amiga, me inspirou a abordar o mesmo tema. Segundo ela, “ Somos responsáveis pelos sentimentos que provocamos nos outros.”, o que vai na mesma linha de “ Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, célebre frase de Exupéry em “ O Pequeno Príncipe”.Não vou concordar com o Exupéry, quem acredita nessa máxima torna a própria vida ( e possivelmente a dos outros) num inferno.

A vida é cíclica e há amores ( lato sensu) que se extinguem, seja por combustão espontânea ou provocada. Há até amores que nunca foram, mas tinham um “ ar de”. Somos PARCIALMENTE responsáveis pelos sentimentos que provocamos nos outros e provavelmente estes terão um reflexo também em nós. Se despertamos amor, ódio, compaixão, sentimento de vingança, carinho ou inveja nos outros, mesmo que não sejamos completamente responsáveis por isso e até mesmo inconscientes, isso nos afetará de alguma forma.

Já ouvi de gente de fora do Rio de Janeiro que neste quesito estamos muito piores por aqui. Que aqui se diz “ eu te amo” e congêneres muito mais em vão do que em outras paragens. Acredito. Não sem lamentar profundamente. Quais as razões dessa profusão de “eu te amos”, dessa afetividade incomensurável exaltada publicamente em relações românticas e sociais, declamada de viva-voz ou até publicamente via internet? Diz a amiga que não se diz “eu te amo” impunemente. Muito antes dela, um sábio amigo já me dizia: “ Ninguém transa impunemente, nem mesmo em sexo casual.” Ambos têm razão. E, todos havemos de concordar, atualmente transa-se muito mais do que se ama. E se declara mais do que se ama também, não podia ser muito diferente...

O que as pessoas estão querendo com essas declarações pródigas por aí que são outros quinhentos. E não dá pra generalizar. Por vezes quem diz realmente se acredita imbuído daquele sentimento todo, apenas esquecem-se de acrescentar que costumam ser ( MUITO) volúveis. Sentem com intensidade, no entanto são serial lovers de carteirinha. Amam e desamam com a maior facilidade. Esse tipo sempre me intriga. Parece que usam o amor e a paixão como um droga recreativa.

Há também, sempre, os mal-intencionados/as. Aquele povo que gosta de manipular e induzir o outro em erro. Gostam do exercício da sedução como esporte de auto-afirmação, importando infinitamente mais a prática em si do que o alvo. Não sentem nem um vinte avos do que verbalizam, mas adoram experiências com os sentimentos alheios. Medinho de amar temos todos. Amar é se expôr e se colocar, em alguma medida, nas mãos do outros. Na categoria dos sedutores/as contumazes estão os seres que têm absoluto pavor de envolvimento, de se colocar minimamente nas mãos de alguém mas, no entanto, adoram ter os outros- de preferência vários/as simultaneamente- em suas mãos.

Aqui no Rio há um excesso de declamação de sentimentos- reais ou fictícios- sobretudo em público, que me constrange. Quem nunca recebeu um surpreendente abraço de irmã/ irmão xifópago justo de quem menos esperava em plena via pública? Aqueles abraços que parecem estar no “ pause” tamanha sua duração. Numa dessas, depois que o abraçador foi embora, me virei para uma amiga íntima que estava do lado e perguntei: “ Fulana, você se lembra se eu doei um rim pra essa pessoa? É que agora fiquei meio confusa...”

Quem nunca recebeu beijos melados e efusivos de uma pessoa distante que se acreditava, ou queria se fazer acreditar, muito próxima? Numa cidade em que se dá tapinha nas costas e se diz “ vamos marcar alguma coisa, passa lá em casa, me liga” aos 15 minutos do primeiro tempo com a facilidade que se espirra, fatalmente as relações supostamente mais íntimas também sofrem influência.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Entre a razão e a emoção, fico com os dois!

Razão e emoção

Uma amiga terminou o namoro. Segundo ela, faltava o principal: a paixão dele por ela. Sentia atração física e intelectual por ele, mas achava que não era correspondida na mesma moeda. Ou melhor: na moeda que desejava. E isso causava um incômodo que não foi capaz de suportar por muito tempo.

Tentei argumentar que o namoro estava apenas começando, espera aí que as coisas ou se ajeitam ou descambam de vez...mas já era tarde. Num rompante, ela , que supostamente gostava mais e era gostada de menos, terminou o namoro. Ele aceitou sem argumentar. Ela sofreu mais ainda por isso e concluiu, pela reação dele, que estava mesmo certa ao encerrar aquela relação.

Uma das mais valiosas lições aprendi ainda na infância: “ Não aponte uma arma pra ninguém, a menos que esteja realmente disposto a atirar.” Ameaças podem funcionar bem cinematograficamente para prender a atenção do expectador mas, na vida real e em relacionamentos, costuma ser um retumbante fracasso de bilheteria.


Deseja terminar um relacionamento? Primeiramente certifique-se que no momento se encontra realmente capaz disso ( apesar do sofrimento) e só então o faça. Nunca o contrário. Claro que haverá sempre o fator-surpresa, mas faça uma estimativa realista.

Já estive preparada para términos que efetivamente aconteceram como previsto, já estive preparada para términos que no entanto não se concretizaram naquele momento, mas felizmente nunca terminei/ fui terminada sem um mínimo de preparo prévio, atabalhoadamente. Mesmo assim, um término de relação nunca é absolutamente fácil, de se tirar de letra. Sempre há várias dificuldades inclusas, por mais que tenha sido algo refletido e consensual. Pra que piorar ainda mais as coisas agindo por impulso?

Será que as pessoas estão influenciadas demais pela ficção, pelos filmes e novelas, com suas cenas drásticas e dramáticas, com seus arrebatamentos sentimentais que dão Ibope? Porque a razão é frequentemente associada à falta de emoção, à frieza? A razão pura aplicada aos relacionamentos deve ser de um marasmo infinito, mas agir guiada por arroubos sentimentais tampouco é garantia de bem-estar. Cada vez mais me convenço que o equilíbrio ideal leva em consideração razão e emoção simultaneamente.

Voltemos à reclamação da amiga: da falta de paixão do namorado. Segundo ela ( que não é meu alter ego), tudo se passava bem: boa companhia, o sexo também era sempre bom...no entanto, ela sempre incomodada por se considerar mais envolvida do que ele. Num namoro anterior tinha acontecido exatamente o contrário: o namorado de então visivelmente muito mais envolvido do que ela. E também não funcionou.

Já perdi as contas das vezes que ouvi mulheres dizendo que tudo ia bem no relacionamento, exceto o sexo. Faltava pegada- diziam elas. E lamentavam a falta de fogo e paixão. Ou, em outras relações, havia pegada de sobra, mas todo o resto ia de mal a pior.

Claro que o ideal seria um feedback perfeito, com a mesma intensidade de sentimento da outra parte. Mas será que isso é mesmo possível fora do mundo da ficção? Mesmo nas fases de paixão arrebatadora recíproca, nada me tira da cabeça que sempre um gosta mais, está mais envolvido. (E atenção: não necessariamente quem demonstra mais é efetivamente quem está mais envolvido pois há os durões e duronas, que estrebucham de forma minimalista, sem jamais passar recibo.)

Relações oscilam o tempo todo, nunca são estáticas. Mas, quando estão indo às mil maravilhas, queremos que ela assim se mantenham. Impossível. Não adianta espernear: cedo ou tarde o equilíbrio de forças muda. O mesmo vale para quando as relações passam por períodos ruins para posteriormente se recuperar de forma quase que inacreditável, premiando os que tiveram o controle emocional de se manter no leme apesar da tempestade. Essas oscilações inevitáveis podem ser parte da graça, do inesperado, do imprevisível. Ou podem ser um inferno para os que não se conformam com essa realidade.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Desconectar para conectar

Por motivos variados, sobretudo de ordem técnica, estive ausente por um bom tempo.Embora os motivos de ordem técnica não tenham sido solucionados ainda ( problemas no Word, até mesmo no Works- substituto, no Zoundry Raven- um programa usado para postagem de blogs- estou dando meu jeito.A revolução tecnológica é muito fantástica mas dá nos nervos ao te deixar na mão justo quando vc se encontra quase que patologicamente acostumada com certas comodidades.O blog vai adiante, nem que seja na manivela.Esses empecilhos vieram até a calhar com o tema que escolhi: a importância de se desconectar para se conectar verdadeiramente.Minha observação diária, auto e voyeurística, já tinham me feito refletir sobre o tema, mas este vídeo aqui foi a gota d'água pra sentar AGORA, e nem um minuto a mais, para escrever sobre o tema.


http://www.youtube.com/watch?v=PDa1Ek3LVlc


Na minha trajetória de Yoga, meditação e afins sempre foi frisada a importância de estar focada no momento presente, no aqui e no agora, que é o único espaço no qual podemos verdadeiramente agir.O passado está lá atrás e o futuro não aconteceu ainda.Claro que o passado pode- e deve- ser pedagógico e o futuro esperançoso e planejado, mas isso é bem diferente de uma outra problemática que percebo muito, em mim e nos outros: como se não bastasse a tendência humana natural à evasão do aqui e agora,temos várias ferramentas que dificultam o quadro.

Provavelmente já na Renascença era possível se dirigir a um interlocutor de olhar perdido, completamente desligado do que vc estivesse dizendo, mas com os celulares, sobretudos os com conexão à internet e vários aplicativos, as tvs e todas essas traquitanas que permitem levar músicas e informação para todos os lugares tornam cada vez mais comuns pessoas de corpo presente e mente ausente.Somando-se a isso as exigências profissionais, sociais e pessoais estão muito mais intensas que antigamente, tornando o quadro deveras preocupante.Por exemplo: meu pai, lá pelos anos 60/70, costumava passar horas no barco, completamente incomunicável com o mundo externo, navegando, mergulhando e pescando.Só quem estivesse ali com ele teria a sua atenção e ele talvez pudesse usar o tempo para refletir sobre a própria vida, mas sem nenhuma influência externa.Sem e-mails pra checar, sem celular pra tocar.Devia ser uma maravilha.Hoje em dia não me espanto se os mergulhadores e pescadores checarem e-mails e receberem chamadas de celular até em alto mar.Tecnologia pode ser uma mão na roda, mas também pode ser uma tremenda roda presa.Quem aí já não teve a vida entravada pelo excesso de solicitações de várias frentes, e até quem, por exigência profissional, tem que conviver com isso diariamente?! O telefone fixo toca, toca o celular, chega um e-mail que exige resposta imediata, nisso toca o segundo celular....uma loucura! Vira a batalha para manter a caixa de entrada razoavelmente limpa, os e-mails devidamente retornados, as respostas devidamente dadas.E convivemos com pessoas, em maior ou menor grau, em condições semelhantes, o que potencializa a situação, vira progressão aritmética ou até geométrica...Depois, na hora em que nos dizemos " agora chega, vou desligar o computador, vou fechar a caixa de entrada, vou desligar o celular, a tv, o rádio, largar o jornal de lado, os afazeres profisionais, as preocupações de ordem pessoal, vou tomar um banho e dormir", temos dificuldades homéricas! É um tal senso de urgência instalado em nós que muitas vezes não podemos sequer dormir impunemente.E com isso a insônia, os remédios pra dormir...Logo depois já é hora de acordar e correr para checarmos o que " perdemos" durante o tempo que estivemos dormindo: quais as notícias de hoje, o que está acontecendo no país e no mundo, quem me ligou, quem me mandou e-mail,quem espera uma resposta minha, o que falaram nas redes sociais? Quais questão de trabalho ou não estão pendentes? Hoje em dia não tem jeito mesmo: temos smartphones, laptops com conexão ilimitada, GPSs e, no entanto, muitas vezes ficamos mais desorientados do que nunca sem saber onde deveria estar verdadeiramente o foco da nossa atenção, tão pulverizada naquele momento.E, desnorteados, muitas vezes perdemos tempo com os assunto errados e só depois nos damos conta e nos arrependemos.

Nos acostumamos a fazer várias coisas ao mesmo tempo e continuamos nessa por hábito, mesmo que o momento não exija.Suspeito que dar/ receber atenção plena de alguém é o luxo dos luxos atualmente.Aquela atenção quando vc e o outro estão de corpo e mente presentes ali, sem interferências externas.Levante o dedo quem não esteve em momentos cruciais de conversas, profissionais ou pessoais, e o telefone, seu ou do interlocutor, tocou com uma questão que passou por cima daquela igualmente urgente ou até mais urgente?! E a necessidade inescapável de introjetar um sistema o mais eficiente e justo o possível da hierarquia das urgências? E a etiqueta social e profisional disso tudo?!

A atenção que podemos dar a nós mesmos também é um luxo.Um tempo de pausa, um tempo para relaxar e não pensar em nada ou em bem pouco.Um ócio criativo.Ou um momento a dois, romântico ou não.Ou reuniões profissionais ou sociais a três, a quatro, a cinco, mas com as pessoas ali não apenas de corpo presente.

Tenho feito um esforço consciente para me policiar.De não andar correndo ou esbaforrida qdo não preciso apagar nenhum "incêndio".A não ter senso de urgência quando não precisa ou não adianta.A controlar a minha frequência, conseguindo assoviar, chupar cana e abrir côco quando é imprescindível mas só pelo tempo que isso fôr estritamente necessário, nem um minuto a mais.Porque se deixar no piloto automático a tendência é de viver em contínuo estado de pressão, urgência, premência, alerta, até mesmo nos poucos e privilegiados momentos em que poderíamos nos dar ao luxo de fazer menos coisas de cada vez sem culpa.É um aprendizado demorado, mas creio que vale a pena.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Câmera lenta

Meu recorde de reclamações é, sem dúvida nenhuma, no trânsito, com relação a motoristas que empatam o meio da rua ou a faixa da esquerda molengando.Se você é uma pessoa zen, sem pressa de chegar, maravilha! Mas porque dificultar ostensivamente quem quer ir mais rápido? Cariocas, tanto motoristas como pedestres, parecem ter problema nesta área.

Desafio que se ache, em qualquer escada rolante dentro dos limites do estado mesmo nas estações do metrô mais apinhadas, pedestre que se coloque à direita deixando a esquerda livre para passantes apressados.Por essas e outras que eu, acelerada convicta que sou, prefiro muitas vezes as escadas não rolantes quase não usadas pois me permitem queimar umas calorias e chegar mais rápido e com menos estresse ao topo.Sim, porque no Rio de Janeiro onde vivo as pessoas se incomodam com um " com licença" no meio da escada rolante, como se em algum lugar estivesse escrito que o correto é esperar imóvel feito frade de pedra o fim da subida.

Esse molengação coletiva deve ser cultural.Neste balneário do qual vos escrevo as pessoas molengam no meio da rua, as vezes como se estivessem em estação de águas em São Lourenço.Nunca me esquecerei da uma lição de civilidade que tive em Londres, ao estacionar no meio de um degrau da escada rolante do metrô.Fui surpreendida por uma horda de ingleses subindo a escada a galope, rosnando para que eu saísse da frente e me apontando que a esquerda devia ser mantida livre.Fiquei maravilhada! Finalmente tinha achado a minha turma, eu que tantas vezes bufei embarreirada em escadas rolantes do metrô carioca por gente de ares tão placidamente bovinos que não se moveriam sequer para afugentar as moscas.Em hibernação talvez?!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Garotas que bebem

Durante a Copa do Mundo, em meio a todos aqueles feriados informais forçados em dias de jogo do Brasil, o Ivan Martins da revista Época escreveu um interessantíssimo artigo intitulado “Garotas que bebem”. Vale uma gogglada, e como vale.

Segundo ele, de acordo com estatísticas do Ministério da Saúde, para mulheres quatro doses de bebida numa mesma ocasião são consideradas abuso (para homens cinco doses.). Apenas ultrapassei essa cota de caso pensado em jantares românticos em locais privados. Uma só vez devo ter ultrapassado em público, de forma não deliberada, em férias de adolescência num inverno rigoroso do Sul de Minas. Jovem demais, frio demais e conhaque demais. Fiquei mais falante do que meu normal e só me dava conta do que estava falando no meio, ou no fim da frase. Acho que fiquei chata e, como estava com uma grande amiga e o namorado dela, temi que tivesse falado mais do que devia.Depois me disseram que não cheguei a causar nenhum constrangimento, mas pra mim já é constrangimento suficiente não controlar as palavras que saem da minha boca ou, pior ainda: nem lembrar delas.

Não sigo nenhuma religião que proíba a bebida, aprecio experimentar bebidas novas, adoro uma refeição regada a vinho, mas, para os padrões nacionais, sou considerada praticamente uma freira Carmelita com relação à bebida. Meus amigos e conhecidos já sabem, muitas vezes vira até motivo de piada o fato de ou não beber nenhuma dose ou beber muito comedidamente em reuniões sociais.

Com bebidas, ajo como com chocolate: aprecio mesmo, então não me dêem chocolate entupido de gordura vegetal assim como não esperem que eu ache graça em beber uma latinha suja e quente de cerveja. Sou do tipo chato, confesso, que entre beber cerveja em copo de plástico e ficar só na água, escolhe sem pestanejar a segunda opção. Bebida pra mim, como chocolate, é um ritual e não uma coisa banal.Isso me ajuda, assim como o fato de não apreciar beber/comer de pé, a beber pouco ou quase nada.Mas parece que a maioria não se importa e com isso e assim fica fácil ultrapassar 4 ou 5 doses cotidianamente.

Outra coisa que me ajuda a beber menos é justamente adorar comer e comer muito. Comer e beber com o mesmo entusiasmo levaria minha circunferência a proporções inaceitáveis, logo escolho firmemente o garfo ao copo. A Lei Seca que se abateu sobre o Rio pouquíssimo me abalou. A única coisa chata agora é ser obrigada a entrar em filas para soprar bafômetros, coisa que JAMAIS tinha me acontecido em década e meia como motorista habilitada.Desconcertante e patético ter que soprar um troço de plástico que vai aferir minha capacidade ao volante sob o olhar atento de um clube do Bolinha oficial.

Bom, mas sou exceção. A maioria gosta de beber bastante publicamente (chamam de socialmente) e para essa maioria grande parte da diversão da noitada daí advêm. Realmente pode ser bastante chato estar muitas doses de distância de uma maioria que já aumentou o tom de voz, já fala arrastado e faz declarações de afeição a quase-desconhecidos. Pode ser como estar de corpo presente numa festa pra qual não se foi convidada.Mas isso é opção.Não por ser abstêmia ou por não gostar de bebida, mas por poder escolher quando estou a fim de beber ou não, sem ter que beber porque é ocasião pra beber. Normalmente não se dá às pessoas essa liberdade, vão logo te colocando um copo na mão e enchendo-o automaticamente toda vez que o nível desce um pouco. Suspeito que isso seja considerado cortesia, amabilidade, camaradagem... E também é com camaradagem que brincam com você dizendo “Puxa, vai parar, vc é fraca, hein?”!”ou” Putz, não vai beber?!”

Com toda essa praxe social, o que acontece? As mulheres andam bebendo cada vez mais, algumas vezes até como homens. O que elas tem a ganhar? Absolutamente nada, nem mesmo provar que tem os mesmos direitos deles porque isso, apesar dos sutiãs queimados e muita gritaria, não têm mesmo. Podem até ter da boca pra fora, “pra Inglês ver”, na mesa do bar, mas dentro das mentalidades e off the record a coisa é bem diferente. A sociedade brasileira adora posar de liberal, mas no fundo é de um tradicionalismo colonial. Podemos evoluir socialmente sim, mas a equiparação dos sexos não é um alvo possível e muito menos desejável. Lastimável que muitas mulheres se esforcem para se equipararem aos homens muitas vezes no que eles fazem de equivocado. Nosso organismo é mais sensível à bebida, somos mais frágeis fisicamente e socialmente mais expostas. A prova é que um homem e uma mulher completamente bêbados jamais serão vistos pela platéia com os mesmos olhos e jamais terão o mesmo julgamento.

domingo, 11 de julho de 2010

Roupa suja se lava em casa- ou se lavava...

Compro a edição 634 da Revista Época e na capa leio a seguinte chamada: “Barraco no youtube: Como a reação de uma mulher traída virou atração” acompanhada da foto da auto-difundida chifruda. Se ela queria publicidade, ninguém há de duvidar que conseguiu.

Segundo a revista: “Vivian Almeida de Oliveira, de 34 anos, colocou na internet, em uma página da rede de relacionamento Orkut, a prova de que seu marido, o comerciante Cícero Oliveira, de 54 anos, a traíra. (...) Por dez minutos e 18 segundos, ela aparece num vídeo caseiro conversando com a sua melhor amiga, a comerciante Juliana Cordeiro, de 33 anos.” A loba em pele de Cordeiro, ao ser pressionada com provas, admite o caso de 5 anos que mantinha com o marido da “amiga”. Com uma amiga dessas, quem precisa de inimigos?! O mínimo que pode se dizer é que Vivian não tem o dom de se fazer cercar das melhores pessoas, nem nas amizades, nem no casamento. Coitada mesmo.

O sangue-frio que permitiu que ela colhesse provas da infidelidade (e-mails entre os amantes, fotos...) e chamasse a “amiga” para uma conversa filmada com o objetivo de obter uma confissão não se mantém. O vídeo descamba em tapas e patéticos puxões de cabelo, Juliana derrubada no chão e, ao que parece, pisoteada por Vivian.

Segundo Vivian, seu objetivo seria mostrar à sociedade sorocabana o verdadeiro caráter da amiga-traíra, mas terminou dando um tiro no próprio pé ao filmar e difundir sua agressão contra Juliana.

Ao ouvir uma dessas, me questiono a esmo.

Já que o objetivo era uma conversa catártica, porque não chamar o marido ao invés da amiga? Pelo menos em tese, não seria ele o comprometido, pelos laços sagrado do matrimônio, a manter a fidelidade? (Ei, eu ouvi esses risinhos!)

Que a pessoa fique transtornada com uma traição até posso entender, mas dar tiro no próprio pé fornecendo prova contra si mesma? Vivian, que é advogada, poderia ao menos ter tido o lampejo de editar o vídeo na parte das bofetadas e companhia.

Suspiro nostálgica lamentando que nem tudo é progresso nesse mundo, bons tempos aqueles em que “roupa suja se lavava em casa”, a portas fechadas e sem indesejáveis testemunhas...

A revista informa que Cícero é um homem “de pouca estatura, enrugado, que pinta os cabelos de acaju e tenta esconder a calvície.” Juliana é casada com Fábio, um” jovem rico, bonito e com boas relações na cidade”. Pondero que muitas vezes o perigo está onde menos se suspeita. Pessoalmente, entre o risco de ser traída por um homem com a descrição de Cícero, prefiro em sã consciência sê-lo por alguém assemelhado o máximo possível a um deus grego ou ao Rodrigo Hilbert. Daria no mesmo.

Realmente entendo o desespero da pobre traída, casada com um homem 20 anos mais velho sem atributos aparentes e levando não uma mera corneadinha esporádica e aleatória, mas um chifre homérico de 5 duradouros anos com a suposta “melhor amiga”. Dose pra mamute.

A afirmativa anterior prova minha tese antiga e genial: “A traição tem razões que a razão desconhece.” Qual o sentido lógico-cartesiano em chifrar a melhor amiga com um homem sem atributos quando se tem um bonitão (e rico) em casa?! Tesão resta um mistério insondável da raça humana. Temos que admitir a bem da verdade: é possível se ter um tesão desnorteador a ponto de se desejar SINCERAMENTE ser o absorvente interno da Camila Parker Bowles e permanecer impassível diante da Lady Diana. Um vetusto e saudoso dentre os meus professores tinha mesmo razão: “A realidade ultrapassa a ficção.”

Uma nota especial para as mulheres, adoradoras do flagelo auto-impingido de se comparar compulsivamente umas com as outras: muito pior do que ser traída por uma bonitona deve ser levar uma rasteira de uma feiosa. Só com nervos de aço. Ó senhor, por piedade, protegei-me deste mal, amém! Sim, porque até dá pra racionalizar um chifre magistral desferido por uma mega-ultra-arqui-sensualíssima e fogosa mulher que lembre a Demi Moore em striptease, mas imagina só descobrir que teu parceiro pula a sua cerca com a caixa vesga da padaria?! Putz... (Isso me lembra do caso Hugh Grant, que namorava a beldade celestial Elisabeth Hurley ao ser preso em via pública como sujeito passivo de um sexo oral desempenhado por profissional de décima categoria ironicamente apelidada de “Divine Brown”. Se essa era a divina dos calçadões de Beverly Hills, por piedade me poupem da infernal.) E o Bill Clinton, com sobejas oportunidades, escolher sujar o vestido justo de uma gorducha-dentuça-branquela-puritana de araque! Se EU fosse o presidente dos Estados Unidos... Bem, melhor parar por aqui.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Redes sociais e privacidade- onde raios se encontra o limite saudável?

Resisti horrores até finalmente me filiar ao Orkut. Resisti, resisti, resisti.Finalmente entrei e até gostei.Quando surgiu o convite para o Facebook logo me inscrevi e no twitter idem.Hoje me dia faço parte de todas essas redes sociais e o que observo me faz refletir.

Tudo bem que não sou parâmetro de suposta normalidade pra ninguém: sou reservada acima da média, seja em redes sociais virtuais ou não. Não sou de dar tapinhas no ombro de quem acabei de conhecer e muito menos de sair falando da minha vida privada para pessoas com as quais não tenho ainda uma intimidade conquistada com bases nos critérios de antiguidade e mérito. No entanto, as redes sociais ganharam tanta importância que é comum num primeiro contato já saírem perguntando o seu MSN, seu Orkut, etc. e tal. Já me acostumei com isso. MSN tive e hoje não uso nem por decreto, nunca vi um ralo de escoamento de tempo mais eficiente. Supostamente é uma ferramenta de comunicação, mas na prática a conversação fica o mais truncada possível: as pessoas se sentem capazes de manterem várias discussões simultâneas e, na verdade, não se dedicam bem a nenhuma delas. Cansei disso. Assim como não gosto de reuniões sociais monumentais nas quais só é possível ter conversas de elevador, também não gosto de perder meu tempo com conversas de elevador fora do elevador, instalada diante da tela do computador. Se é pra ir do nada a lugar nenhum, com licença que tenho mais o que fazer. Nem que seja meu ócio criativo.

O Orkut e o Facebook são também o reino do voyeurismo, do exibicionismo e do... hummmm, espírito investigativo. Hoje mesmo, em um show pós Brasil X Chile, um grupo festivo tirava fotos freneticamente, pareciam japoneses de férias em Paris. Eram sorrisos mostrando as amídalas, montanhas humanas unidas em abraços siameses, exibição orgulhosa de garrafas de cerveja... e a conclusão que não quer calar: aposto que essas 399 fotos estarão em breve recheando o Orkut e aparecendo nas “atualizações de amigos” de muita gente. Trezentas fotos de variação sobre o mesmo tema, só mudando que mão está segurando a garrafa de cerveja e quem na foto aparece de olhos fechados ou num ângulo não favorecedor da silhueta.

Há uns bons anos atrás, li numa matéria da imprensa que empregadores em potencial chegavam a dar uma investigada no Orkut antes de contratar seus funcionários. A matéria instruía que era preciso ter certo cuidado ao escolher de quais comunidades participar, que algumas delas não pegariam bem. Antes dessas modernidades, certas preferências privadas permaneciam privadas até que se progredisse paulatinamente em intimidade para se descobrir um dia ou nunca. O advento das redes sociais- e sobretudo da forma de utilização que as pessoas fazem de tais redes- torna moleza saber que aquela pessoa com a qual nunca dormi (e nem faço planos de...) “ama dormir de conchinha”. (!!!!) Ou seja, mal se conhece a pessoa e já se sabe que ela gosta de lingerie vermelha, de mulheres ruivas que tomam iniciativa e que fez o maternal na escola Sapinho Feliz onde era aluno da Tia Dorinha! Ao ver uma grande maioria exibindo desencanada e – ouso arriscar- de forma despudoramente exibicionista pormenores de suas biografias na grande rede, por vezes me questiono se não sou mesmo uma dinossaura com uma mania de privacidade pra lá de fora de moda.

Mas será o que explica tamanha necessidade de não apenas documentar exaustivamente a vida social, mas de ato contínuo publicá-la nas redes sociais? De se exibir a expectadores curiosos como a nossa vida é agitada, como temos tantos amigos, como nos divertimos horrores nas nossas horas de folga, como somos populares, como curtimos a vida adoidado, como namoramos, como estamos loucamente apaixonadas e somos correspondidas, como em todas as nossas viagens tiramos todas as fotos protocolares nos pontos turísticos obrigatórios e, last but not least, como nos amamos desbragadamente a ponto achar interesse em postar 45 auto-fotos sorrindo para o espelho do próprio banheiro?

sábado, 29 de maio de 2010

Efeito manada



Não quero que esse blog vire um clube da Luluzinha, mas me desculpem: hoje PRECISO falar sobre esmaltes.

Desde que nasci, há 35 anos, o mainstream das mulheres brazucas sempre usou esmaltes clarinhos, tanto nas mãos como nos pés. Nos pés, sobretudo porque mulher brasileira sempre teve urticária de pintar unhas dos pés com cores escuras. As manicures sempre tiveram 3 vezes mais variações de clarinhos do que de escuros em seus estoques.Os “ vermelhos” ( que era como chamavam genericamente TODOS os esmaltes escuros), tinham bem pouca saída.Vez por outra alguma tia velha de unhas compridas ou alguma mulher mais arrojada usava um.

Enquanto isso, na gringolândia, as mulheres gostam de escuros nos pés não é de hoje.
Eras depois, as brasileiras que antes prefeririam cair da escada de costas a ter as unhas dos pés pintadas de vermelho, começaram a se sentir tentadas a ousar. Começaram timidamente tentando e fazendo cara feia.Pedindo pra manicure pra tirar e recolocar os misturinhas.A indústria continuou bombardeando como sempre, mostrando as estrelas de Hollywood e do mundo da música usando cores que fugiam do clarinho incolor, inodoro e insípido.Aqui no Brasil as novelas continuaram os bombardeios, com atrizes globais usando esmaltes não-clarinhos.Só aí então, finalmente, as coisas mudaram.Se colocarem a mocinha da novela das 8 usando papel higiênico usado como parte da indumentária, é capaz de vender!

A mudança não foi natural, foi desesperada: um frenesi grupal tão doido, um verdadeiro surto feminino coletivo que chega a ser patético. Hoje em dia ir na manicure e pedir um esmalte clarinho é praticamente um crime.Os clarinhos foram deixado de lado e os balaios das manicures deixam o arco-íris parecendo uma combinação monótona de cores: incontáveis variações do vermelho ( vermelho sangue-fresco, vermelho sangue-coagulado, vermelho-tomate, vermelho-paixão, vermelho deixa beijar, vermelho Ivete Sangalo, vermelho ***!), variações absurdas de rosa, de corais e ultimamente variações inacreditáveis de cores néon variadas (abóbora comlurb, amarelo flúor, rosa Pink de doer as vistas...) e até impensáveis variações de cores antes relegadas do mundo dos esmaltes como verdes e azuis.Como aparentemente não tinha mais nada a ser inventado entre cintilantes e cremosos de todos os matizes, criaram os foscos e um pós-esmalte que tira o brilho de qualquer esmalte.( Já havia previamente um outro produto chamado extra-brilho, que dá brilho a qualquer esmalte.)

Outro dia vi uma senhora na manicure, a pedido da filha que ia casar no dia seguinte, experimentando um esmalte verde-musgo cintilante para combinar com o vestido durante a cerimônia. Felizmente ela se deu conta que aquele esmalte ficaria bem na Kate Moss num editorial da moda, mas não numa respeitável senhora de uns 60 no altar de uma cerimônia de casamento estilo pátria-família-sociedade. Infelizmente muita gente não tem esse discernimento, até porque é difícil mesmo resistir ao apelo coletivo: praticamente todo mundo usando e a gente vai se des-sensibilizando e achando que aquilo é pra todo mundo.Não é questão de idade, é também uma questão de estilo, de quem se é e se as novidades são compatíveis com o kit da obra.A Elke Maravilha por exemplo, pode fazer 80 anos, que sempre vai combinar com qualquer cor de esmalte escalafobética que seja bolada pela infindável criatividade humana.

As empresas de esmaltes estão alucinadas, lançando compulsivamente cores e coleções novas no mercado. Impossível conhecer todos os lançamentos, já vários blogs foram criados só para tratar de esmaltes ( coisa impensável no tempo monótono do binômio misturinha ou vermelho-praticamente-único.) O pior: lançam muita porcaria no mercado: esmaltes com péssima cobertura, que descascam no dia seguinte ou que exigem uma paciência de Jó porque só ficam com cobertura aceitável na terceira camada! As manicures andam reclamando que tem esmalte demais a venda, mas muitas vezes as cores com cobertura verdadeiramente homogênea não são achadas nos pontos de venda.

Criam essa infinidade de cores, muitas delas ruins, pra se criar o desejo do consumo. Antigamente, quando era só misturinha ou vermelhão, as mulheres precisavam de bem pouco pra saírem realizadas e confiantes da manicure.Hoje em dia a coisa vai num ritmo tão frenético que não raro a mulher que não sabe que “ sereia” é um verde-água se sente um peixe jurássico de profundidades abissais.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ao povo, a vacina!


Outro dia fui ao posto de saúde tomar a vacina da H1N1. Esperei pacientemente a época de vacinação da minha faixa etária ( a última de todas) e lá fui eu.Ao chegar, me espantei com as filas enormes: uma para idosos e outra para o resto dos mortais de idades variadas.Na fila das idades variadas, vi inúmeros evidentemente fora da faixa que teoricamente deveria estar sendo vacinada: a minha, a dos balzaquianos.

Como não tinha nada mais de interessante a fazer durante a espera (não estava com paciência de ficar ouvindo meus podcasts e também já tinha esgotado meu estoque de amenidades pra conversa de fila com as mulheres atrás de mim), resolvi questionar a funcionária do posto, que já aparentemente não estava lá de muito bom humor...

“- Minha senhora, se a faixa etária a ser vacinada agora é a dos trinta, porque estão sendo vacinadas pessoas das idades mais variadas hoje e criando esse furdunço todo aqui?”

“- Eu que não me meto mais nisso! Veio gente fora da época da faixa etária, nos recusamos a dar a vacina e chamaram até a polícia! Agora neste posto de saúde vacinamos qualquer idade, mesmo fora da época da faixa etária específica. Não estamos aqui para nos chatear... A senhora sabe como é brasileiro...”

“- Sou brasileira, consultei o site do Ministério da Saúde, obtive a informação que a minha faixa etária era de tanto a tanto, e aqui estou na época devida.”

A funcionária reconheceu que eu agia de forma diferente da maioria, fez mais um muxoxo e continuou sua tarefa como um zumbi.

Na minha vez, vi vários funcionários esfalfados numa linha de montagem de seringa na mão, vacinando como robôs, sem nem passar álcool no braço antes da vacina e muito menos- e muito mais grave- sem fazer o procedimento- padrão de falar com o paciente, mostrar se tratar de material descartável, mostrar a vacina e a validade e descartar o material usado na frente dele. Nada disso, a vacinação era conduzida a céu aberto numa área externa do posto, os funcionários com as mesmas luvas atendendo a fila toda sem sequer desinfetar as mãos, nem sequer trocando uma palavra sequer com os pacientes sobre o procedimento. Mal dei por mim e em décimos de segundo já tinha uma agulha que ninguém me mostrou ser descartável (embora acredite que tenha sido) sendo enfiada no meu braço, com uma vacina que tomara que tenha sido a de H1N1 dentro da validade e em ato contínuo fui catapultada pra fora da fila.

Saí me sentindo mal atendida e questionando o sistema e a razão das coisas serem assim. A culpa por esse atendimento pífio não é apenas do sistema de saúde pública, afinal que sistema estaria preparado para atender um número absurdo de pessoas de todas as faixas etárias ao mesmo tempo, qdo a expectativa era para cobrir apenas uma faixa etária específica e mais reduzida?! Detecto individualismo e falta absoluta de planejamento por parte da própria população. Querem se vacinar e vão quando melhor lhes apraz, fim de papo.Porque não se informar e ir ao posto na época certa pra própria faixa etária?! A maioria das pessoas não é capaz de um planejamento tão simples assim, causando um tumulto dos infernos nos postos de saúde e um serviço de pior qualidade pra todos.Who cares?!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

“Foi a maior ducha de água fria!”


A expressão acima é usada para expressar situações decepcionantes nas quais se está contando com uma coisa e acontece justamente o contrário do esperado. A gente vai repetindo essas expressões sociais sem nem se dar conta, e reforçando a idéia de que uma ducha de água fria é mesmo coisa pra lá de indesejável.

Sempre que ouço alguém dizendo que vai chegar em casa depois de um dia de trabalho e tomar um bom banho, invariavelmente a pessoa vai fazer questão de frisar tratar-se de um banho no mínimo morno. E mesmo que seja verão.

Usa-se muito aquele diminutivo afetivo: “bem quentinho”, aquele do” carninha na brasa, batatinha frita...”. Posso até gostar de churrasco e batata frita, mas convenhamos: não são as melhores coisas pra saúde, assim como também o nacionalmente idolatrado banho de água quente, quiçá quase em ebulição. Nem bem sei como num país tropical a ducha fria pode ter tão péssima reputação a ponto de ser usada numa expressão dessas.

Faço parte da turma restrita praticante do banho frio e ainda não me acostumei com a cara de choque/ horror das pessoas. Se eu dissesse que uso estrume de cavalo como tratamento cosmético, chocaria menos. Quando lavo cabelo em salão, tenho que falar bem firme: “ água fria MESMO, por favor!”- e a moça, invariavelmente, vai fazer cara de “ será que ouvi bem?”- se eu não falar nada, pode contar que a água vai ser “ morninha”, ou seja: escalpelante pro meus padrões.

Confesso que já me rendi ao banho quente inúmeras vezes. Já tanto ouvi as pessoas ostentando socialmente em conversas sociais as delícias do banho quente, que já tomei sim. Pode ser bom, num dia frio, quando se está bem debaixo do jato de água quentinha.Quando se sai do banho ou se desliga o chuveiro pra se ensaboar, é um dissabor.Minha pele não deve ser das melhores mesmo pois pra um banho quentinho depois tenho que tomar um banho de creme hidratante.Minha pele resseca, meu cabelo não fica bom, me dá um frio danado depois. Pensando friamente, essa coisa de banho quente não é lá essas coisas. Mesmo assim, a pressão social é tamanha que vc se diz: “ Não é possível que todo mundo esteja errado e eu certa, deixa eu tentar mais um pouquinho.”

Se alguém expressar socialmente que fuma maconha, eu até agora nunca vi ninguém repreender e dizer: “Cruzes!” Experimentem, só de brincadeira, numa roda social soltar uma” Eu só tomo banho frio, mesmo no inverno!” e vejam o que é bom pra tosse!

Sou praticamente uma alienígena: criada a banho frio e fazendo natação à noite mesmo durante o inverno (e não tinha essa moleza de piscina coberta e aquecida de hoje em dia...) Meu avô, um sujeito que só vi doente pela primeira vez um ano apenas antes da sua morte quase aos 90 anos, foi um dos raríssimos partidários do banho frio. (Tá certo que além do banho frio ele mantinha seiscentos mil outros hábitos saudáveis, mas o conjunto da obra lhe era largamente favorável, tanto que ele nunca aparentou a idade que tinha e não era dado a achaques. Não há registros de que ele tenha alguma vez sido visto de lenço na mão, assoando o nariz ou com febre. Claro que a genética tem seu peso, a mãe dele, se não tivesse sido atropelada lá pelos 90 anos, era bem capaz de emplacar os 100.)

Segundo o Yogue Ramacháraca (sem brincadeira), o que causa sensação de frio é justamente o banho quentinho. Nuno Cobra, preparador físico do Ayrton Senna, compartilha do mesmo ponto de vista: quando se toma banho frio, o corpo reage num esforço para se aquecer.Pode ser desagradável no início, mas o corpo se acostuma e dá um enorme prazer durante e depois.Faz um bem danado para a pele, cabelo, circulação e, last but not least, estado de espírito.Diria eu até que dá “ barato” que não é imoral, nem ilegal e nem engorda!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ironias do cotidiano na Cidade Maravilhosa

Sempre adorei dirigir, até antes mesmo de aprender. Já dirigia imaginariamente quando criança, olhando os adultos. Contei os nanossegundos até fazer 18 anos, quando finalmente poderia tirar minha carteira de motorista! Já tinha uma boa noção de direção de tanto observar motoristas e também de umas práticas clandestinas esparsas em estradas quaternárias do sul de Minas Gerais, durante minhas férias de adolescência.

Gosto tanto de carro que me lembro dos carros do meu pai da minha tenríssima infância. Lembro de todos os carros que minha mãe teve com requintes de detalhes. Lembro do cheiro do carro do meu avô que me levava pras férias.Na brincadeiras de infância, era imbatível em reconhecer modelos e marcas de carro. (Hoje em dia, com tanta diversidade, já fica consideravelmente mais difícil...).

Gosto também de conhecer novos caminhos e de descobrir rotas alternativas para meus percursos habituais. Recentemente estava procurando um endereço em Jacarepaguá, um bairro carioca que conheço mal e porcamente. Esse bairro, por suas proporções gigantescas, deveria reivindicar status de cidade.Num dado momento, devo ter errado as indicações e percebi que estava me distanciando do meu alvo.Cadê retorno? Retorno não tinha. E engarrafamento não faltava, tinha acabado de sair de um de quase meia hora. Aquele erro poderia bem me custar um tempo precioso que eu não tinha. Apesar disso, eu estava disposta a fazer a coisa certa.

De olho no relógio e presa na sucessão de sinais, olhei pro lado numa mão-dupla e pensei em embicar o carro numa garagem do outro lado e criar meu próprio retorno. A faixa era dupla e achei melhor respeitar.Mais adiante, vi um posto de gasolina numa reta em que daria pra manobrar.Cheguei a entrar no posto mas desisti novamente de fazer a coisa errada, a faixa era novamente dupla! (queria eu estar em Londres e poder fazer U-turns!). Mais desanimada e ainda mais atrasada alguns sinais de trânsito lentos depois, já praguejando contra o planejamento viário da cidade, me deparo com um posto da PM um pouco recuado na margem da rua. Manobro, paro e pergunto aos policiais como fazer pra retornar. Pausa para os policiais se entreolharem antes de me responderem: “ Ah, retorna ali, ó, espera o sinal fechar.” Ali era um sinal, eu teria que ficar em cima da faixa de pedestres além daquilo que eu já tinha evitado por 2 vezes: infringir a famigerada faixa dupla.Perguntei incrédula: “ Poooooode?!” E eles: “ Pode!”, mas fizeram questão de dar partida na viatura e irem embora antes de presenciarem minhas infrações!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Motivação, disciplina e procrastinação

Não sei pra vocês, mas disciplina é uma palavra relativamente recente no meu vocabulário. Claro que já me adaptei ao longo da vida às disciplinas impostas externamente pela família, pelo sistema educacional e por empregos, e até que sem tantos percalços assim. Mas no tocante a disciplina auto-imposta, geralmente deixei a desejar.Talvez por ter, em tenra idade, associado auto-disciplina a sofrimento, limitação e chatura.Demorei muito tempo pra começar a vislumbrar que talvez a inicialmente vista como enfadonha auto-disciplina seja, na verdade, uma grande libertação.

Venho suspeitando também que a tal da motivação seja talvez uma das coisas mais importantes da vida. Quanto maior a sua motivação, maior a sua força para a execução da tarefa que for, independente do tamanho do seu Everest particular.

Há muitos anos atrás li uma reflexão do William Douglas comparando a vida a uma maratona, uma prova de longa distância. Realmente faz sentido.Podemos ter, dentro dessa maratona, espaço para pequenos tiros de 100, 200 metros rasos...mas na verdade é aconselhável ter uma visão geral e não imediatista para poder completar bem a prova.Isso compreendeu o playboy Jorginho Guinle, porém um pouco tarde demais...Perguntaram-lhe numa entrevista: “ Mas como o senhor, vindo de uma família tão rica e tendo tido um padrão de vida tão astronômico, chegou ao ponto de morar de favor?” Ao que ele respondeu, com aquele sorriso característico nos lábios: “ Pois é, fiz as contas pra viver uns 60 anos mas acabei chegando aos 80...com essa me dei mal!”

Outro questionamento recente é, já que certas coisas têm que ser feitas, porque são infalivelmente deixadas para a última hora?! O mais recomendável não seria nos desincumbir o mais rapidamente possível de certas tarefas inescapáveis, como o envio da declaração do imposto de renda, para depois assistir confortavelmente como mero espectador a turma da última hora se descabelando e congestionando a internet?

quarta-feira, 31 de março de 2010

Socorro, cobrançaaaaa!

Cobrança é uma palavra que faz todo mundo se arrepiar. Ainda mais quando levada para o campo dos relacionamentos afetivos. Nem tem mais graça ouvir as pessoas reclamando de parceiro ou amigo-cobrador.Volta e meia ouço essas variações sobre o mesmo tema vindas de pessoas completamente diferentes.Outro dia um rapaz reclamava que a ex cobrava demais a sua presença e também cobrava que fossem morar juntos quando ele não estava disposto.A relação foi pras cucuias, aparentemente sem deixar boas lembranças. Exemplos aqui não faltariam, mas o que mais me impressionou recentemente, e deixando o segundo colocado a léguas de distância, foi o caso de uma amiga.

Essa amiga tinha um amigo. Um amigo até mesmo confessadamente interessado nela como mulher. Só que minha amiga não está no mercado, tem namorado e vai muito bem, obrigada. Comunicou que ele não tinha a mínima chance e ele aceitou continuar sendo “ apenas” amigo.Aceitou da boca pra fora, pelo menos.Esse amigo era dedicado, mas solicitava a minha amiga além do que ela estava disposta.Era o típico: “eu me dedico a você, mas atenção:isso não vai ficar barato.” E não ficou mesmo. Há pessoas que dão muito de si sem que ninguém peça e depois cobram com juros e correção monetária. E a fórceps.E nem todo mundo está disposto à relações assim.

Ele ensaiou um primeiro ato da ópera quando certa vez exigiu que a amiga saísse de outro compromisso social para atendê-lo. Bombardeou a criatura com torpedos frenéticos tentando fazê-la se sentir culpada e depois fez muxoxo. Depois tentou se vingar fazendo com que ela sofresse por essa suposta desconsideração. Não discuto o mérito da questão, de quem tinha razão e nem coloco em dúvida que ele tenha se sentindo realmente mal e rejeitado na sua dedicação. Discuto que, quando um adulto se sente rejeitado por outro, não cai nada bem reagir como uma criança. Nem numa criança devemos aceitar passivamente ataques de birra, tentativas de manipulação. Até nas crianças devemos tentar ensinar que não é assim que ela vai conseguir alguma coisa da gente. Mas muito pai e mãe por aí se vende por ataques de choro ou de fúria....e muito filho cresce sem saber como negociar como adulto, sem grandes cenas.

Meses depois, o ex-amigo pediu desculpas indiretas à minha amiga e disse que tinha sido um panaca. Que ela podia contar com ele e se reaproximar. A reaproximação não durou muito porque aconteceu o ato derradeiro da ópera: o segundo ataque de fúria e frustração.


Sentindo-se mais uma vez preterido socialmente (o que não significa ter sido preterido no mundo real e sim como a pessoa absorve ou reage ao que considera uma rejeição, mesmo que não tenha sido o caso...) o indivíduo reagiu de forma ainda mais surpreendente do que na primeira vez. Primeiro por torpedos muxoxentos e depois por uma cena digna de novela: com direito a palavrões vociferados e sinais obscenos com as mãos. Cabe esclarecer o leitor que o ex-amigo é um senhor muito respeitável e aparentemente equilibrado dos seus 50 anos. Não que a idade nos obrigue a nos tornar mais equilibrados, mas equilíbrio cai bem em todo mundo, e, sobretudo nos mais velhos. Isso me lembra de uma história contada pelo Washington Olivetto. Perguntaram como tinha sido ganhar Leões de ouro em Cannes aos 20 anos.Ele respondeu que foi ótimo, e sobretudo porque assim ele pôde ter sido idiota numa idade em que isso é plenamente aceitável.

Não sou especialista em cobrança e nem em não-cobrança. Prefiro não cobrar a ninguém.Quando é absolutamente necessário, converso.Não fico me lamuriando eternamente como aquelas pessoas resmunguentas e muito menos jogando indiretas ou fazendo a pessoa pagar por pecados que nem sabe que cometeu. Quando a pessoa não se toca mesmo e aquilo é muito importante pra mim, seja em amizades ou namoros, digo: “Olha, isso aqui não está bom pra mim. Temos como mudar?” Depois deixo a bola com a pessoa e observo.

Ou senão, em situações nas quais deixei meu saco transbordar completamente e resolvi tirar meu cavalinho da chuva definitivamente, não cobro xongas, apenas comunico que pra mim já era. Inês é morta. Bau-bau.

Meu melhor amigo me passou um dos ensinamentos que considero mais valiosos: “Faça o seu melhor num relacionamento. Se não der certo, depois vc não terá nada do que se arrepender.” Anteriormente já tinha me sentido preterida umas duas vezes por essa mesma amiga da história. Eu, que tinha feito o meu melhor no relacionamento de amizade com ela, estava tranqüila. Na minha cabeça, ela que tinha escolhido mal a prioridade e não havia nada que eu pudesse fazer, além disso. Não cobrei sequer educadamente, que dirá dar pití ou ter acessos de raiva. Deixei pra lá.

O tempo passou, essa ocasião em que outra pessoa a acusou furiosamente de não prestar a devida consideração chegou, e resolvi comentar: “olha, vc não sabe, mas já estivemos em situação análoga.”

A diferença é que, ao me sentir frustrada na minha expectativa e rejeitada, por ter uma estrutura psicológica diferente da dele, reagi diferente. Não cobrei e não dei ataque.


Acho um saco ter que cobrar de algum amigo ou namorado, geralmente se a vontade de retribuir não nasce espontaneamente no outro, não me interessa. Posso sinalizar que algo não vai bem, mas sem grandes arroubos, sem cenas de novela, sem palavrões e muitíssimo menos patéticos sinais obscenos com meus dedos médios... Consideração arrancada a fórceps não tem valor.

sexta-feira, 19 de março de 2010

" Você precisa de um homem pra chamar de seu, mesmo que esse homem seja..."

Semana passada o Ivan Martins escreveu em sua coluna na revista Época um artigo com o tema acima, provavelmente inspirado na música de Roberto e Erasmo:

Sei que você fez os seus castelos
E sonhou ser salva do dragão
Desilusão meu bem
Quando acordou estava sem ninguém
Sozinha no silêncio do seu quarto
Procura a espada do seu salvador
Que no sonho se desespera
Jamais vai poder livrar você da fera
Da solidão
Com a força do meu canto
Esquento o seu quarto pra secar seu pranto
Aumenta o rádio me dê a mão
Filosofia é poesia é o que dizia a minha vó
Antes mal acompanhada do que só
Você precisa de um homem pra chamar de seu
Mesmo que esse homem seja eu
Um homem prá chamar de seu


A realidade me mostra que a música e o texto do Ivan são super atuais: a mulher sofre uma cobrança social muito maior que o homem caso esteja sem parceiro. E, pior de tudo: muitas vezes, esse preconceito vem das próprias mulheres!

Outro dia uma amiga ouviu o seguinte comentário em tom jocoso: “Aaaaeeee, fulana!? Tá namorandooooo!!! FINALMENTE, hein?!”
Minha amiga não perdeu a oportunidade de colocar os interlocutores nos seus devidos lugares. Ainda bem. Isso tem seu propósito educativo.

O fato é que, tenham o desplante de exprimir isso ou não, as pessoas pensam. E começam a criar até hipóteses pras situações. Eu mesma fui questionada por um rapaz se mantinha um caso homo-afetivo com uma das minhas amigas mais próximas. Motivo: ele tinha me visto chegar sozinha várias vezes,sem companhia masculina nem feminina, no bar dessa amiga. E me viu passar várias noites na minha, curtindo a música e conversando despretensiosamente com amigos, e não de tacape na mão caçando alguém pra supostamente salvar minha noite. Chegar sozinha e sair sozinha na noite carioca, ainda mais se repetidas vezes, pode ser considerado um sinal esquisito para alguns.

Pra mim o esquisito é o efeito-manada, o ficar por ficar e é especialmente patética a hora do desespero quando os homens já se encontram bêbados e ficariam com você, sua mãe ou sua vizinha manca, dependendo de quem parecesse um tiro mais certeiro.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Pequena anedota da vida cotidiana

Outro dia, conheci dois franceses aqui no Rio: um bretão e um bordelês.

Por acaso, a Bretanha é de longe minha região favorita, mas também adorei a região de Bordeaux, não só pelos vinhos, mas também por experiências ímpares que tive por lá.Esta me pareceu reunir o maior número de franceses verdadeiramente dedicados à cultura brasileira que tenho notícia. Não se trata de tão somente achar legal (isso praticamente todos os franceses acham...) mas de realmente se dedicar durante o ano inteiro ao forró ou ao samba.Conheci uma escola de samba impressionante por lá, genialmente batizada de Macunaíma, composta APENAS por franceses e francesas, desde as passistas, passando pelos ritmistas e até o mestre de bateria! E não fazem feio!

Já a Bretanha, além de ser magnífica, tem um povo absurdamente hospitaleiro. Para se ter uma idéia, conheci um casal de franceses num monumento turístico em Biarritz, conversei com eles durante uma meia hora e ao final eles me passaram seus contatos e me disseram que teriam mesmo o maior prazer em me receber na casa deles lá no Golfo de Sarzeau na Bretanha.No início fiquei desconfiadíssima porque aqui no Brasil, até onde eu saiba, isso não acontece. Qualquer carioca desconfiaria de alguma pegadinha ou de papo furado puro e simples. Pois bem, não era.Fui, fiquei alguns dias e fui praticamente adotada, até pelo cachorro! (Um labrador creme muito fofo chamado Ópio- por se tratar de um cão farejador aposentado da Polícia.)

Por essas e por muitas outras, sou completamente siderada pela França e pelo seu povo. Realmente dou uma sorte inacreditável na França, as portas se abrem, encontro as pessoas certas, motoristas de ônibus-homens e mulheres - me dão carona sem que eu peça, franceses e francesas de idades variadas que encontro a esmo me paparicam, se oferecem pra me ajudar, é simplesmente impressionante! (Claro que não uso lentes cor-de-rosa e sei que fdp há em todo o lugar. Já encontrei uma francesa assim em Marselha, mas realmente foi A exceção.)

Claro que conversei muito com os tais 2 franceses sobre alguns dos meus temas favoritos: a França, as diferenças culturais e sociais entre nós e eles, suas regiões específicas e as especialidades gastronômicas francesas respectivas. Aparentemente, era um caso raro para eles topar com uma estrangeira tão genuína e profundamente interessada na França a tal ponto.

O papo foi ótimo, eles estavam voltando pra França no dia seguinte e um deles disse veementemente que faria questão de manter o contato, pediu meu e-mail e mandou um e-mail um tanto efusivo no dia seguinte. Achei meio esquisito porque o povo francês não é tão efusivo de saída, a cerimônia é algo que eles geralmente mantêm até que seja absolutamente natural para ambos os lados passar para o degrau seguinte, quando tal transição geralmente flui naturalmente. Respondi naturalmente, sem arroubos de efusividade.

Hoje de manhã, recebo outro e-mail dele e me digo “Ué, já?! De novo?!”
Eis o e-mail na íntegra:


salut mignnone!!
bon ben ça ces fait me voila en france franchement ça caille grave
ça fait une semaine que je suis la,et j'ai deja les levres gercé.
heureusement que j'ai mon projet de sushi ,sinon jcroix que je je je me suiciderais putain de merde!!
bon toi ces pas la peine de te demander si ça vas //!!
jaimerai que tu m'envoy les photos de lucio et les tienes porfavor!!
mais j'ai pas l'adresse encore je t'envoy ça plus tard merci bisous!!!!!!!!!!

Minha tradução livre: (Dei uma melhoradinha nos erros de ortografia e em repetições como "Je je je- Eu eu eu", mas procurei manter a pontuação e diagramação escalafobética.)


Oi, lindinha!!!
Bem, aqui estou eu na França, sinceramente tá um frio do cacete.
Cheguei há uma semana e meus lábios já estão rachados.
Felizmente que estou com o projeto-sushi, senão acho que iria me matar, pqp!!!
Bem, nem vale à pena perguntar como vc está!
Gostaria que você me mandasse as suas fotos e as do Lúcio, por favor!!
Ainda não tenho o endereço, mando mais tarde, obrigado, beijinhos!!!!!!!


Ao ler esse e-mail maluquete, me perguntei: “Quem raios é esse Lúcio?” Vocês conhecem? Pois bem, eu muito menos! rs...

Não resisti e respondi:


“rs.... acho que vc tá se confundindo de lindinha! Lúcio? Não conheço! Fotos minhas?! Caraca acho que você não está batendo bem da bola! Beijos assim mesmo! Grrrrrr....rs”

terça-feira, 2 de março de 2010

Retumbantes detalhes

Outro dia, uma amiga me relatava seu mal de amor. Estava envolvida com um cara que cantou em prosa e verso como ela era especial, a cercou por todos os lados, elogiou, adulou,disse várias coisas que ela queria ouvir, a perseguiu... Numa dessas coincidências da vida, toparam por acaso quando ela já estava com várias doses a mais e capacidade de raciocínio a menos e terminaram na cama.

Ato contínuo ao fim da transa, ele resolve discutir a relação. Estranho comportamento pra um homem? Muito. Pensando melhor, não se tratava de discutir e sim decretar unilateralmente. Ele, que até poucas horas atrás derramava elogios e induzia veementemente pensamentos a respeito do futuro (conjunto), resolveu dizer bem claro que as coisas iam parar por ali. Ele estava com muitos problemas, muito trabalho, muitas questões, ela era especial demais, mas que ali era o ponto final. Ouvindo aquilo tudo, eu perguntei: ‘ Mas peraí, antes de vcs transarem a vida dele estava ótima, trabalhando pouco, sem maiores questões existenciais... e tudo desandou qdo vcs transaram?!”(E a transa, segundo ela, tinha sido das melhores...)

Já ouvi casos de caras que tem a mais absoluta certeza de que não podem sequer respirar sem tal mulher específica, que ela é o máximo dos máximos, que ela o deixa louco e o faz sentir coisas que nunca antes sentiram e magicamente, de uma hora pra outra, nem se dão a educação de responder um e-mail. Será que a pessoa teve um surto? Certamente que não. As mulheres que não souberam ler os sinais (Não querendo punir a “vítima” com mais culpa ainda, mas não dá pra dar bobeira, se permitir ser vítima... e depois chorar pitangas.). Somos adultos, não somos?! Então provemos! E em benefício próprio, de preferência!

Certamente que o camarada deu sinais (e deu mesmo porque interrogando-a tecnicamente detectei os furos, os momentos de cegueira-seletiva...), mas minha amiga se apegou aos sinais que lhe apeteceram e fez vista grossa pros sinais não-perfumados, justamente aqueles pros quais ela deveria ter dado mais atenção. As palavras são a parte mais facilmente enganosa de uma relação de sedução. Minha amiga, meu amigo, desligue o áudio das palavras acariciadoras de auto-estima tão facilmente pronunciadas em série e em vão e me responda com sinceridade: as atitudes desse cidadão ou cidadã parecem estar em consonância com toda aquela profusão de elogios ou com aquele suposto interesse todo?! Ele ou ela te deixa no vácuo, não responde telefonemas ou e-mails e depois vem de conversa mole como se dependesse de você pra respirar?! Mande catar coquinho no asfalto nos primeiros 15 segundos de conversa-fiada, antes que seu rabo comece a abanar por conta própria. Antes que seus ouvidos sejam engabelados pelo canto de sereias genéricas.

Minha tese é que, a menos talvez em casos de bem mais graves, de psicopatas de filme americano, todo mundo dá sinais de quem é, do que desejam da relação e temos todos tempo hábil pra cair fora qdo acharmos mais conveniente ou ficarmos em guarda. Isso vale pra todo o tipo de relação: amizade, namoro, sexo casual, rolo, casamento, relação profissional, comercial...(Outro dia li no blog do Christiano Dortas o post “Amor do cão” em que ele fala sobre o que é se apaixonar perdidamente por alguém intermitente como pisca-pisca: corresponde, não corresponde, corresponde, não corresponde. Procura, some, procura, some, procura, some. E o apaixonado-canino sempre na expectativa da chegada do dono, de linguinha pra fora, sempre abanando a cauda ao menor sinal de afago. Situação patética. O texto dele é interessante, vale a gogglada.)

O marido que espanca já foi um namorado ciumento e explosivo, a empregada rouba algo substancial um dia começou roubando coisas pequenas. E a patroa não notou. Ou notou e convenientemente fingiu que não notou pq, por um motivo ou outro, não estava disposta a mandar a funcionária embora.Gente faz vista grossa pros defeitos de alguém e algum tempo depois paga caro essa cegueira seletiva, tenha sido voluntária ou inconsciente.

Outra teoria que costumo aplicar com satisfatórios resultados é ver como a pessoa trata as outras pessoas, lato sensu. Já me afastei de amigas por não concordar com falta de ética delas com terceiros. Se uma pessoa é anti-ética com outra pessoa, ser anti-ética comigo é só questão de tempo ou oportunidade.Porém constato abismada como tanta gente fica perfeitamente à vontade tendo amigos/parceiros que sacaneiam ou são desonestos com terceiros, achando que a relação de amizade/amorosa os protege...Que espécie de burrice de conveniência é essa?!